Vozes da Angústia

Geovane Ferreira

5/31/20242 min read

Se um dia eu aprender a escrever vou me deixar arrastar por todos os cantos que a palavra angústia quiser me levar.

Até me imagino com o ouvido na porta de Clarice Lispector a ouvir o tac, tac, tac de sua maquina de escrever a imprimir no papel o que ela mesma escavaria na carne como Mensagem:

A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou ... assim, engolia emocionadamente a alegria involuntária que a verdadeiramente espantosa coincidência dela também sentir angústia lhe provocava – ele se viu falando com ela na sua própria angústia ...

E, porque a imaginação não tem limites, atrevidamente me pus a escutar, como quem pudesse alcançar tão sofisticado sentido, num Seminário de Jacques Lacan que “... a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reconhecer ...

Tenho certeza que eu quase entendi ou teria entendido não fosse um tropeço misterioso que fez se voltar meu olhar para a figura tão solitária de Freud, talvez a pensar ou a sonhar ou até mesmo a desejar, como espreitando algo d’O Sinistro ... () “Não cabe duvida que dito conceito está próximo ao de espantoso, angustiante, arrepiante, porém não é menos seguro que o termo se aplica a miúde a uma acepção um tanto indeterminada, de modo que quase sempre coincide com o angustiante ... Em suma: quiséramos saber qual é esse núcleo, esse sentido essencial e próprio que permite discernir, no angustioso, algo que ademais é sinistro.” ( tradução minha)

A ponto de quase naufragar nesse angustiante mar de palavras, Pessoa de nome Fernando, profundo conhecedor destas marés, me faz escutar, com Desassossego, das procelas “O pasmo que me causa a minha capacidade para a angústia. Não sendo de natureza, um metafisico, tenho passado dias de angústia aguda, física mesmo, com a indecisão dos problemas metafísicos e religiosos ... Vi depressa que o que eu tinha por a solução do problema religioso era resolver um problema emotivo em termos da razão.

Eu acredito em cada palavra.